O caos e a preocupação nos bastidores da escolha do nome para vice de Flávio Bolsonaro

 

Em 'Os Três Poderes', editores analisam mudança de última hora na chapa do PL, ausência do Centrão e aposta em corrupção e segurança pública como eixos



A escolha de Alfredo Gaspar como vice de Flávio Bolsonaro consolidou uma chapa pura do PL, contrariou a expectativa de que o senador escolheria uma mulher para ampliar seu alcance entre o eleitorado feminino e expôs, na avaliação dos participantes de Os Três Poderes, as dificuldades de articulação política da campanha. No programa de VEJA apresentado por Ricardo Ferraz, o colunista Robson Bonin e os editores Laryssa Borges e José Benedito da Silva destacaram o caráter inesperado da decisão, a ausência de partidos do Centrão na aliança e os riscos trazidos pelo novo companheiro de chapa (este texto é um resumo do vídeo acima).

Até a véspera do anúncio, segundo Bonin, a campanha trabalhava para que o escolhido fosse Rogério Marinho. Foi apenas durante a madrugada que o nome de Gaspar ganhou força. “A gente passou vários dias aqui acompanhando clima de mistério e depois tudo se resolveu numa aparente confusão”, afirmou o colunista de Radar. Para ele, dois fatores pesaram na mudança: a reorganização da disputa política em Alagoas com a saída de Gaspar da corrida ao Senado e a possibilidade de explorar casos de corrupção durante a campanha presidencial.

Por que Alfredo Gaspar entrou na chapa de última hora?

Bonin avaliou que a passagem de Gaspar pela comissão parlamentar que investigou os descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas pode transformá-lo em uma peça importante na estratégia de comunicação eleitoral. Segundo o colunista, o deputado virou uma espécie de “arquivo vivo” das informações que chegaram à comissão e que poderão ser exploradas politicamente durante a campanha.


A aposta, porém, veio acompanhada de um problema imediato. Ferraz lembrou no programa uma acusação contra Gaspar relacionada a um caso de estupro de uma menor de idade. O deputado nega qualquer envolvimento e atribui o episódio a ataques de adversários. Para Bonin, a campanha de Flávio falhou ao não fazer previamente uma investigação aprofundada sobre o histórico do escolhido. “O maior temor da campanha agora é que o Flávio passe os próximos dias tendo que explicar tudo isso”, disse.

O anúncio do vice revelou isolamento político de Flávio?

Para Laryssa, a resposta está também na composição do palco montado para apresentar Gaspar. “É um improviso no estado mais bruto”, afirmou. Segundo a editora, não estavam presentes presidentes de grandes partidos do Centrão, dirigentes estaduais do próprio PL — com a exceção de Valdemar Costa Neto — nem familiares próximos do candidato, como os irmãos e Michelle Bolsonaro.

A avaliação de Laryssa é que Flávio chega à disputa sem alianças oficiais com partidos do Centrão e dependente de uma chapa formada apenas pelo PL. Na visão da jornalista, a acusação mencionada contra Gaspar acrescenta ainda um novo problema ao candidato. “O simples fato de existir essa acusação, ela já funciona como uma sombra na campanha do Flávio”, afirmou.

Por que o Centrão decidiu não embarcar com Flávio?

Laryssa atribuiu o afastamento dessas legendas também ao receio de integrantes do Centrão de serem atingidos por investigações. Segundo sua análise , políticos desses partidos temem que uma associação direta com a campanha presidencial de Flávio possa aumentar a exposição de seus integrantes diante de apurações policiais.

O resultado é uma candidatura presidencial que, segundo os comentaristas, chega ao início da campanha sem a estrutura partidária que Flávio buscava construir. O próprio Valdemar admitiu, em áudio exibido pelo programa, que a definição aconteceu “em cima da hora”, embora tenha elogiado Gaspar como um nome capaz de contribuir especialmente nas áreas de segurança pública e combate à corrupção.

Corrupção e segurança serão as armas da campanha?

José Benedito avaliou que, apesar da forma turbulenta como ocorreu a escolha, a indicação ajuda a esclarecer quais serão os principais campos de confronto de Flávio durante a eleição. “A campanha dele é marcada pelo caos sempre”, afirmou o editor.

Para José Benedito, Gaspar reúne dois temas que devem ocupar posição central no discurso eleitoral do PL: corrupção e segurança pública. O editor destacou a experiência do deputado na área de segurança e sua atuação na comissão que investigou os descontos indevidos em benefícios previdenciários.

A decisão, portanto, pode oferecer à campanha instrumentos para intensificar o confronto político nesses dois terrenos, mas chega acompanhada de um custo destacado pelos três analistas: Flávio definiu o vice sem conseguir atrair formalmente os partidos do Centrão e, ao apostar em um nome escolhido de última hora, abriu uma nova frente de desgaste justamente no momento em que precisava demonstrar organização e capacidade de ampliar sua aliança.


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Vice de Flávio, Alfredo Gaspar pede à PGR exame de DNA após acusação de estupro









Candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) propôs à Procuradoria-Geral da República a coleta de seu material genético para que seja realizado um exame de DNA, como forma de rebater a acusação de estupro de vulnerável apresentada por parlamentares.

A PGR avalia se endossa ou não um pedido da Polícia Federal para abrir inquérito contra ele sobre o caso. Gaspar nega ter cometido o crime.

No documento, sua defesa defende que a PGR faça a comparação genética, estabeleça um prazo curto para a conclusão do procedimento e, caso seja descartado o vínculo genético e não surjam outros elementos, rejeite a solicitação da PF. A campanha também protocolou requerimento semelhante no Supremo Tribunal Federal, onde o pedido da PF aguarda avaliação do ministro Gilmar Mendes.

O material genético do deputado foi coletado em 23 de abril, após uma decisão judicial da 3ª Vara Cível de Maceió (AL), que atendeu a um pedido do próprio parlamentar. Os advogados argumentaram à PGR que a prova científica é o que vai demonstrar que a suspeita seria “falsa, descabida e acintosa”.

No documento, os advogados afirmam que o exame seria capaz de “demonstrar cabalmente” a inocência de Gaspar e classificam a suspeita como “falsa, descabida e acintosa”. “A defesa não pede que se acredite na palavra do peticionário. Pede algo bem mais exigente: que submeta a palavra do peticionário ao teste da ciência”, diz a manifestação enviada à PGR.

O caso teve início a partir de uma queixa-crime apresentada em março à PF por Lindbergh Farias (PT-RJ), vice-líder do governo Lula na Câmara, e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS). Os parlamentares apontaram indícios de que Gaspar teria estuprado uma adolescente de 13 anos, hoje com 21. Segundo o documento, a violência sexual resultou em uma gravidez, da qual nasceu uma menina, atualmente com oito anos.

A criança teria sido registrada como filha da avó materna para ocultar a identidade da vítima e do agressor. O documento também afirma que o deputado teria oferecido 70 mil reais, por meio de um intermediário, para comprar o silêncio da família.

Em abril, a PF solicitou a abertura do inquérito, mas Gilmar remeteu os autos para manifestação da PGR, que solicitou outras diligências antes de definir sua posição. A reportagem apurou que o relator pediu que Soraya preste mais informações ao STF sobre a suspeita do suposto estupro de vulnerável envolvendo o deputado do PL. Ela tem 15 dias para fornecer elementos que ajudem a identificar autores de mensagens que constam dos autos e dados sobre ligações telefônicas. Procurada, a senadora disse que não iria comentar.

A acusação ganhou tração nas últimas horas após o anúncio de Gaspar como candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Flávio. Aliados do presidenciável admitem que o episódio pode intensificar para o desgaste junto ao eleitorado feminino. Na petição à PGR, a defesa do deputado também destaca o aspecto eleitoral para defender a celeridade na apuração.

“A existência indefinida de um procedimento sem prova produz, em ano eleitoral, dano que não se repara com arquivamento tardio, porque a suspeita tem a velocidade da manchete e a verdade tem a lentidão dos autos”, diz o documento, assinado pelos advogados Maria Cláudia Bucchianeri e Tracy Reinaldet.

Em nota divulgada na quarta, a campanha de Flávio afirmou que Lindbergh e Thronicke “lançaram uma acusação mentirosa e de extrema gravidade sem apresentar qualquer prova, indício mínimo e nem sequer existência de vítima”, com o objetivo de tumultuar o relatório da CPI do INSS, colegiado no qual Gaspar atuou como relator.

Gaspar nega as acusações desde que o caso veio a público. Na ocasião, o deputado divulgou nas redes sociais um vídeo ao lado da mulher apontada na notícia-crime como a criança nascida do suposto estupro. Na gravação, ela afirma não ser filha do parlamentar: o pai biológico seria um primo de Gaspar, e ela teria sido concebida em uma relação consensual. Pela legislação brasileira, no entanto, qualquer relação sexual com menores de 14 anos configura estupro de vulnerável, independentemente de consentimento.

Paralelamente, o parlamentar acionou o STF contra Lindbergh e Soraya, acusando-os de calúnia. “Estou implorando para que haja um [exame] DNA. O meu material está à disposição há cinco meses da Justiça. A minha verdade não interessa, interessa a verdade científica”, afirmou Gaspar durante conversas com jornalistas nesta quinta-feira.






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